domingo, 3 de abril de 2011

Por uma UFRGS de muitas capacidades: sobre mais um trote idiota


Benito Bisso Schmidt*

Quando prestei vestibular – sim, já faz muito tempo... – obtive uma ótima média que me habilitava a ingressar em alguns dos cursos mais concorridos da UFRGS, como Medicina, Direito e... Computação. Portanto, segundo os critérios de seleção da Universidade, eu teria capacidade para cursar vários cursos além daquele que escolhi: História. E, como não poderia deixar de ser, muitos me questionaram: mas porque História? Porque não escolher um curso mais valorizado socialmente, com mais possibilidades de ganhos econômicos e simbólicos? A resposta, também como não poderia deixar de ser, foi singela: porque eu gosto de História. Minhas hesitações quando a essa carreira foram poucas. Cheguei a pensar em Letras, Arquitetura e Artes... mas nunca em Medicina, embora viesse de uma família com muitos médicos, Direito e muito menos Computação. Certamente não me realizaria, como me realizei na História, se optasse por esses caminhos.
     Ao longo da minha formação desenvolvi muitas habilidades e competências. Aprendi como realizar uma pesquisa histórica, como investigar os registros do passado, como analisar e compreender as ações de homens e mulheres que viveram em outros tempos. Também aprendi a ensinar História para jovens e adultos em diversos graus de escolaridade. Por outro lado, não aprendi muitas outras coisas, por exemplo, a cuidar de um paciente, a interpretar leis, a programar computadores. Aliás, e meus alunos riem muito disso, minha dificuldade com a informática é notória, nem página no facebook  eu tenho!
     Desde que ingressei na UFRGS, venho convivendo com professores e alunos de várias áreas e aprendendo com eles. Percebi que uma das melhores coisas da Universidade é justamente esse encontro das diferenças, de muitas capacidades que podem se complementar e produzir realizações muito legais. Há pouco tempo, por exemplo, fiz a curadoria de uma exposição para o Museu da UFRGS com a colaboração de colegas da Letras, da Antropologia, da Museologia, da Educação e da... Informática. Nem sempre a conversa foi fácil, mas creio que o resultado foi uma colaboração fraterna e uma bela e informativa exposição.
     Por isso, foi com muito desgosto que, durante uma das minhas aulas, ouvi pela janela os gritos que os alunos da Computação bradaram em seu último trote. No início não entendi direito, mas depois, com a ajuda de meus alunos, percebi o que era dito: "Biologia, História, Sociologia, Nutrição, não têm capacidade pra fazer Computação". No início não dei muita bola, até porque sei que slogans semelhantes são usados nos trotes de outros cursos; apenas pensei: “que idiotice!” Mas depois percebi que o problema era mais sério e resolvi me manifestar: será que queremos que ingressem na UFRGS alunos que, embora tenham obtido as médias suficientes no vestibular e/ou no ENEM, não entendem que a Universidade é o local por excelência da pluralidade e do diálogo, e não da hierarquia entre as áreas do conhecimento, da valorização de algumas em detrimento de outras? Será que os “veteranos” ainda não entenderam o valor da troca, do aprender com o outro, e em conseqüência transmitem aos “calouros” os valores do desrespeito e da intolerância? Sim, eu não tenho capacidade de programar computadores, mas tenho várias outras que podem interessar a alunos e profissionais de outras áreas. Sim, quero muito aprender com os colegas da Computação, da Medicina, das engenharias, da Música... pois eles têm capacidades que, certamente, podem me completar e me auxiliar profissionalmente (e existencialmente, ouso dizer).
     Que a administração da Universidade em seus diversos níveis, da Reitoria às chefias de Departamento, não seja tolerante com a intolerância, que reprove publicamente trotes idiotas como esse e, tantos outros, que, com a desculpa de introduzirem os novatos em seus respectivos cursos, reproduzem estereótipos classistas, racistas, sexistas e homofóbicos, além de causarem danos e constrangimentos físicos e morais. Só assim construiremos uma UFRGS de muitas capacidades e com palavras de ordem mais belas e inteligentes. Bem vindos à UFRGS os “bixos” da Computação!

*Benito Bisso Schmidt é professor do Departamento de História da UFRGS

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